Silvia Barbosa

Bio

"De perto ninguém é normal." Álvaro de Campos PASSAGEM DAS HORAS [e] PASSAGEM DAS HORAS Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço. Todas as sensações me tomam e nenhuma fica. Sou mais variado que uma multidão de acaso, Sou mais diverso que o universo espontâneo, Todas as épocas me pertencem um momento, Todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim. Fluido de intuições, rio de supor-mas, Sempre ondas sucessivas, Sempre o mar — agora desconhecendo-se Sempre separando-se de mim, indefinidamente. Ó cais onde eu embarque definitivamente para a Verdade, Ó barco com capitão e marinheiros, visível no símbolo, Ó águas plácidas, como as de um rio que há, no crepúsculo Em que me sonho possível — Onde estais que seja um lugar, quando sois que seja uma hora? Quero partir e encontrar-me, Quero voltar a saber de onde, Como quem volta ao lar, como quem torna a ser social, Como quem ainda é amado na aldeia antiga, Como quem roça pela infância morta e cada pedra de muro, E vê abertos em frente os eternos campos de outrora E a saudade como uma canção de mãe a embalar flutua Na tragédia de já ser passado, Ó terras ao sul, conterrâneas, locais e vizinhas! Ó linha dos horizontes, parada nos meus olhos, Que tumulto de vento próximo me é ainda distante, E como oscilas no que eu vejo, de aqui! Merda p'rá vida! Ter profissão pesa aos ombros como um fardo pago, Ter deveres estagna, Ter moral apaga, Ter a revolta contra deveres e a revolta contra a moral, Vive na rua sem siso.

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